Tumulto em frente ao escritório da Sabesp de Monte Mor na manhã de 2 de fevereiro levou ao acionamento da Polícia Militar; usuários revoltados com cobranças e dificuldades de atendimento provocaram a intervenção.
O episódio
Dois carros da Polícia Militar foram enviados para conter a confusão relatada nas redes sociais pelo pesquisador Adhemar Alves. Segundo ele, a mudança no formato de atendimento da companhia tem sido apontada como causa da insatisfação.
Adhemar descreve que, antes da privatização, o atendimento presencial funcionava das 8h às 17h30, com resolução direta das demandas e contato por telefone fixo local. Hoje, diz ele, o atendimento concentra-se na central telefônica 0800 e o acesso presencial tornou‑se restrito, gerando filas e reclamações.
Nos comentários da postagem, moradores relataram casos concretos.
“Conversamos, falamos que não temos pesqueiro e nem piscina para gastar esse tanto”, relatou Diego Silva ao explicar a cobrança que recebeu.
Diego afirmou ter chamado a polícia após receber uma cobrança de R$ 1.300, referente a um consumo que, segundo ele, corresponderia a 200 mil litros de água.
“O filtro precisa ser limpo semanalmente por causa de uma lama verde”, disse Maria José ao questionar a qualidade da água distribuída.
As manifestações apontam para três eixos centrais de insatisfação:
- dificuldade de atendimento presencial;
- cobranças consideradas excessivas;
- dúvidas quanto à qualidade da água.
Instrumentos legais e responsabilidades
A Sabesp passou por processo de privatização, mas continua sujeita à regulação da ARSESP (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo), responsável por fiscalizar contratos, qualidade do serviço, metas e padrões de atendimento.
O contrato de concessão impõe obrigações sobre prestação do serviço, canais de atendimento e transparência tarifária. Eventuais abusos ou descumprimentos podem ser questionados administrativamente ou judicialmente.
Segundo o relato de Adhemar, funcionários chegaram a afirmar que o prefeito é a autoridade local com legitimidade para provocar a agência reguladora e exigir adequações no atendimento. Além disso, a Câmara Municipal dispõe de instrumentos de fiscalização, entre eles:
- convocar representantes da concessionária;
- instaurar comissões de investigação;
- encaminhar representações à ARSESP e ao Ministério Público;
- promover medidas judiciais, se necessário.
O debate político
Diante do cenário, cresce a pergunta entre moradores: se há instrumentos legais para cobrar melhorias, por que eles não são usados com mais vigor? Caso o prefeito Murilo Rinaldo e a Câmara Municipal optem por não pressionar formalmente a concessionária, trata‑se de uma decisão política, não de impossibilidade jurídica.
O encerramento ou esvaziamento do atendimento presencial e a substituição do telefone local por uma central 0800 podem ser questionados sob a ótica da acessibilidade a um serviço essencial. Água e esgoto mantêm natureza pública, mesmo quando concedidos ao setor privado.
O episódio da Polícia Militar na porta da Sabesp é sintomático: quando a mediação institucional falha, o conflito migra para o balcão de atendimento e, em casos extremos, para a rua. A privatização alterou a gestão da companhia, mas não eliminou a responsabilidade do poder público local de fiscalizar, cobrar e defender os interesses da população.
Se essa cobrança não acontece, não é por falta de instrumentos. É por opção.
Fonte: Da redação.




