Sumaré realizou na última semana mais uma sessão solene de entrega dos diplomas Cida Segura e Anita Garibaldi, em homenagem a mulheres com atuação destacada na vida social, religiosa e econômica do município.
Reconhecimento a 16 mulheres
O evento aconteceu no Anfiteatro Dirce Dalben e reuniu autoridades e representantes da sociedade civil em uma noite dedicada a trajetórias marcadas por trabalho e protagonismo no cotidiano da cidade.
Ao todo, 16 mulheres foram indicadas pelos vereadores e aprovadas por unanimidade para receber as honrarias. Entre as homenageadas estiveram Cecilia Souza Teixeira, Leonice Barboza, Mara Guedes, Maria Aparecida Bezerra e Zilda Cristina Manhani, além de outras lideranças que atuam diretamente no município, muitas vezes longe dos holofotes institucionais.
O simbolismo dos diplomas
O diploma Cida Segura remete a Maria Aparecida de Jesus Segura, figura histórica ligada à luta por moradia, reforma agrária e organização popular em Sumaré. Já o diploma Anita Garibaldi homenageia uma personagem histórica reconhecida por sua atuação em conflitos no Brasil e na Itália, símbolo de coragem e protagonismo feminino.
A contradição da representação
Mas é justamente aí que surge a contradição mais incômoda: a Câmara responsável por celebrar essas mulheres segue composta exclusivamente por homens. Há diversas legislaturas, Sumaré não consegue eleger sequer uma representante feminina para o Legislativo municipal.
O contraste fala por si. No discurso, as mulheres são exaltadas. Na prática, continuam fora do espaço onde as decisões são tomadas. A cerimônia é justa, necessária e importante, mas também expõe uma falha estrutural da política local: a distância entre reconhecimento simbólico e representação real.
Desafio para partidos e lideranças
Não se trata de falta de nomes. As próprias homenageadas demonstram que Sumaré tem mulheres atuantes, lideranças consolidadas e trajetórias relevantes em diferentes frentes. O problema está no caminho até as urnas — um percurso ainda dominado por estruturas partidárias que, na prática, não priorizam ou não viabilizam candidaturas femininas competitivas.
A ausência de vereadoras não é apenas uma questão de imagem. Ela afeta diretamente a formulação de políticas públicas, o olhar sobre temas sensíveis e a representatividade de metade da população. Uma cidade sem mulheres na Câmara é, inevitavelmente, uma cidade com déficit democrático.
Por isso, a responsabilidade não pode recair apenas sobre a escolha do eleitorado. Partidos e lideranças locais precisam ir além das cotas formais e das candidaturas lançadas sem estrutura. É preciso planejamento, investimento e estratégia para formar, apoiar e eleger mulheres. Isso inclui construção de base eleitoral, fortalecimento de lideranças e condições reais de disputa.
Da homenagem ao poder
Se a Câmara reconhece, em solenidade, a importância das mulheres para o desenvolvimento da cidade, é coerente — e urgente — que essa valorização se converta em representação efetiva. Mais do que diplomas e discursos, Sumaré precisa transformar homenagem em poder.
As próximas eleições, mais uma vez, serão um teste. Ou a cidade rompe esse ciclo e passa a ocupar suas cadeiras legislativas com mulheres, ou seguirá presa à mesma contradição incômoda: a de homenagear quem nunca chega ao poder.
Fonte: Da redação




