O episódio em Salinas (MG), quando o prefeito Kinca Dias e o ministro Wellington Dias sugeriram “trocar a carteira de trabalho pelo cartão do Bolsa Família”, expõe uma visão perigosa que naturaliza o assistencialismo em detrimento do trabalho.
O retrato de uma visão
Há momentos em que o silêncio se torna cumplicidade. E há discursos que, pela gravidade do que representam, não podem ser relativizados, amenizados ou explicados com notas técnicas posteriores.
Ao sugerirem, de forma explícita, pública e gravada, a ideia de “trocar a carteira de trabalho pelo cartão do Bolsa Família”, ambos escancararam algo que muitos governos evitam admitir: a resignação do Estado diante do fracasso em gerar emprego, desenvolvimento e autonomia para a população.
“Trocar a carteira de trabalho pelo cartão do Bolsa Família”
A Carteira de Trabalho simboliza esforço, direitos, contribuição, dignidade e futuro. Representa o cidadão que produz, paga impostos e sustenta o próprio país. O Bolsa Família é um instrumento necessário em situações de vulnerabilidade, mas jamais foi concebido como substituto do trabalho.
Quando autoridades públicas colocam esses dois símbolos em oposição, ou pior, sugerem que um pode ocupar o lugar do outro, o que se revela é uma inversão completa de valores.
Não foi erro de linguagem. Foi erro de visão
A tentativa posterior de minimizar a fala como “inversão de palavras” soa ofensiva à inteligência da população. Governantes experientes sabem exatamente o peso das palavras que usam. E quando não sabem, demonstram despreparo para o cargo que ocupam.
Kinca Dias está em seu terceiro mandato. Não pode alegar ingenuidade, empolgação ou desconhecimento. Ao endossar, repetir ou não rechaçar imediatamente a fala do ministro, assumiu como aceitável uma narrativa perigosa: a de que o assistencialismo pode ocupar o espaço do trabalho como projeto de vida.
Isso não é política social. É acomodação institucional.
Administrar a pobreza não é governar
Governar é criar caminhos para que as pessoas deixem de depender do Estado, não para que se conformem com ele. Quando um governo passa a celebrar o cartão como destino final, ele confessa, ainda que involuntariamente, sua incapacidade de promover desenvolvimento econômico real.
A mensagem transmitida foi clara: se não houver emprego, o cartão resolve. Isso não é inclusão. É rendição.
Salinas, Minas Gerais e o Brasil precisam de políticas que gerem trabalho, renda, produção e investimento. Precisam de líderes que tenham coragem de enfrentar os problemas estruturais, e não de discursos que transformam a exceção em regra e a dependência em virtude.
O dano é moral, social e político
Esse tipo de discurso corrói a autoestima do trabalhador, desestimula quem empreende e deseduca politicamente uma geração inteira. Transmite a ideia de que o esforço individual é secundário, que o trabalho é opcional e que o Estado pode, ou deve, substituir permanentemente a iniciativa pessoal.
Nenhuma nação se desenvolveu assim. Nenhuma sociedade prosperou trocando trabalho por assistência.
Conclusão: o Brasil não pode normalizar o fracasso
O que vimos não foi apenas uma fala infeliz. Foi a naturalização do fracasso do poder público em promover a emancipação social. E isso precisa ser dito com todas as letras.
O Brasil não precisa trocar carteira de trabalho por cartão. Precisa garantir emprego, qualificação, salários dignos e oportunidades reais. Precisa de governantes que elevem o cidadão, não que o acomodem.
Quando governantes erram, o mínimo que se espera é autocrítica. Quando insistem no erro, o que se impõe é o questionamento público, firme e sem concessões. É exatamente isso que faço aqui.

Fonte: Paulo Moranza – Ex prefeito de Sumaré e atualmente empresário




