O “Clube da Luluzinha” – aquele espaço sagrado onde “menino não entra” – é uma tradição que, embora evolua em forma, mantém sua essência inabalável através das gerações. Longe de ser uma simples reunião social, o encontro de mulheres emerge como um pilar de apoio, confissão e celebração, adaptando-se às nuances de cada época, mas nunca perdendo seu propósito fundamental: a conexão.
A cena é familiar: potências vocais alteradas, risadas que fazem o vizinho reclamar, e-mails infinitos para organizar, mas a sinfonia natural dos encontros de Patricia, Ana Paula e suas amigas é um testemunho da energia que brota desses grupos. A intensidade do convívio transcende o planejamento, mostrando que a urgência da troca e do afeto é inegociável.

A Longevidade da Tradição: Mais de Cinco Décadas de Amizade
Para Edeltrudes Geiser, de 82 anos, e Senitalya Mayler, de 78, o compromisso é quinzenal e dura mais de cinco décadas. Elas continuam seus “Kränzchen”, termo alemão para esses encontros, adaptando-se à passagem do tempo que levou outras nove amigas embora. Como Edeltrudes lembra:
“Antes, nós enchíamos a mesa ao lado. Éramos em 11, depois ficamos em nove“.
Agora são duas, mas a amizade mantém a vontade de sair para se encontrar, provando a resiliência desses laços. Essa longevidade não é um caso isolado, como demonstra o grupo de Sílvia, Rosevita e outras nove, que mantêm a tradição há 45 anos, unidas por laços de comadre, vizinhança ou trabalho. Helga Ferrari, presente desde o início, descreve-o como uma:
“grande fraternidade. A gente vive a vida da outra, sabe o que acontece, ajuda e discute juntas os problemas”.
Tradição e longevidade das amizades femininas encontram aqui sua materialização.
Juventude e a Reinterpretação do Ritual
A juventude, por sua vez, reinterpreta o ritual. O “Grupo das Lulus”, com idades entre 27 e 39, organiza encontros desde 2008. Patricia Hille, uma das fundadoras, conta que o grupo amadureceu de uma:
“turma comum de solteiras que saía para festas e barzinhos” para uma confraria definida, onde “participações especiais” não são suficientes.
As “Luluzinhas”, formadas por Juliana, Vivian e suas colegas que outrora trabalhavam juntas, nasceram dos aniversários e se mantêm firmes, mesmo que a frequência não seja mais fixa. Ambas as gerações ilustram as diferenças e semelhanças nos rituais de encontro entre gerações, com a base da conexão social inalterada.
Os “Jovens Tardes” e a Geração Anterior
Os “Jovens tardes” dos Kränzchen, nos anos 1960, eram um “momento social” vital. Mulheres dedicadas à família e à casa encontravam nessas reuniões, com tricô, crochê, café e doces caseiros, uma “folga” das responsabilidades, um espaço para “compartilhar alegrias e tristezas”, como revela Rosevita Harger:
“Era a única oportunidade para muitas daquela geração que ‘cresceu para casar e criar filhos’, exigindo encontros que ‘começavam cedo e terminavam cedo’ para buscar os filhos na escola”.
A adaptação dos grupos às mudanças de vida das mulheres é palpável.
Novos Tempos, Novos Desafios e o Valor Inabalável
Os “Novos tempos” trouxeram desafios. Helene Vicktoria Aracheski reflete:
“Agora, as moças se formam e vão seguir uma profissão. Elas não têm mais as tardes livres, então podem, no máximo, se encontrar à noite”.
É por isso que o Grupo das Lulus, por exemplo, marca jantares às 22h, quando todas estão livres.
“No dia seguinte, na hora de trabalhar, quase bate um arrependimento. Mas aí a gente lembra das risadas da noite anterior e pensa que compensa tudo”.
A importância do apoio emocional e social dentro dos grupos de amigas permanece central, mesmo que os dramas sejam superados por piadas e brincadeiras.
Nos grupos mais jovens, os problemas podem ser discutidos, mas geralmente:
“ficam do lado de fora”, cedendo espaço a “verdades que só elas podem dizer”.
O cardápio mudou do bolo e café dos grupos “seniores” para jantares com vinho e champanhe entre as “Lulus”, que também aprenderam a cozinhar juntas. A organização, antes um cronograma anual, agora se dá por e-mails, exigindo dezenas de mensagens para um único acerto. Essa adaptação reflete uma evolução, mas o cerne da amizade permanece. Elizabeth da Silva Cardoso resume com sabedoria:
“Não deve ser muito diferente do que nós conversávamos nos encontros quando tínhamos a idade delas. Falam dos maridos, dos filhos, do trabalho, tiram dúvidas, pedem conselhos. Na verdade, me dá uma peninha delas, porque agora já passamos por tudo isso e sabemos como a vida fica mais fácil”.
É um ciclo contínuo de apoio, risadas e a sabedoria de que “as pessoas que têm estes encontros são mais felizes, encaram a vida de outra forma”.




