A indiferença como o mal contemporâneo

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Para a autora, a reflexão de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal ajuda a entender como a indiferença deixou de ser apenas um defeito pessoal e passou a ser uma condição estruturante do mundo moderno.

A banalidade do mal e a perda do estranhamento

Não é raro ouvirmos que o mundo está mais cruel. Mais inquietante, porém, é a apatia diante dessa crueldade: conseguimos falar de guerras, dores e injustiças sem nos deixar efetivamente afetar.

Hannah Arendt, ao analisar o julgamento de um oficial nazista, cunhou a ideia da banalidade do mal. Para ela, o mal deixa de ser percebido como monstruoso quando a capacidade crítica e o pensamento são suspensos. A violência que vira rotina e a injustiça tratada como estatística perdem sua potência de choque.

O perigo, portanto, não é apenas o aumento da brutalidade histórica, mas a normalização do mal, que passa a parecer administrável em vez de inaceitável.

Indiferença como lógica social

Essa indiferença não se reduz a uma falha individual de sensibilidade. Nas sociedades modernas, que valorizam eficiência e produtividade, a norma social tende a premiar quem se adapta e cumpre funções automaticamente.

O que a Filosofia Moral classifica como falha ética muitas vezes é reinterpretado como pragmatismo, equilíbrio ou maturidade. Assim, a adesão à normalidade brutal garante que “tudo siga funcionando”, mesmo quando isso significa tolerar o intolerável.

Recuperar a perplexidade e o julgamento

A questão é política e moral: como reconquistar a disposição de nos surpreender e de nos indignar em meio às demandas da rotina? Não se trata de negar organização social, mas de questionar uma rotina que anestesia a sensibilidade.

Recuperar a perplexidade é um gesto coletivo e deliberado — não mero sentimentalismo — que preserva nossa capacidade de avaliar, condenar e transformar. Pequenos estranhamentos diante do sofrimento alheio podem ser o início dessa mudança.

Se você se reconhece nessa indiferença, vale a pena interromper a tarefa do dia e perguntar por que mantemos o sofrimento do outro como pano de fundo. Essa interrupção pode ser o primeiro movimento para romper com a normalidade que naturaliza o mal.

Sobre o autor: Juraciara Vieira Cardoso – Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito.

Juraciara Vieira Cardoso - Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito.
Juraciara Vieira Cardoso – Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito.

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